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Autor: |Ronan Dannenberg| Jornalista, músico, crítico, pensador e gremista. Planejo, estudo e enrolo. Roupa preta, sorvete, Rock'n'Roll, dinheiro, espelhos, futebol, mulheres, amigos(as), conversa com fundamento, conversa sem fundamento, sexo, Heavy Metal, compras, internet e frio. Nunca estou satisfeito com nada e procuro sempre o melhor. |
Perdi o meu único filho.
Ninguém, a não ser outra mãe que tenha passado por semelhante tragédia, pode ter experimentado dor maior.
Mesmo sem ter sido dada qualquer publicidade à missa que oferecemos à alma de meu filho Luís Fernando Soares Zacchini, mais de cem pessoas compareceram. Em todos os olhos havia lágrimas. Lágrimas sinceras de dor, de saudade, de empatia. Meus olhos refletiam todos os prantos derramados por ele, por mim, por seu filhinho, por sua esposa, por todos parentes e amigos e por todos os sacrificados na catástrofe do Aeroporto de Congonhas.
Há muito eu sabia que mais desastres aéreos iriam acontecer. Sabia que todos neste país voam sem segurança. Que atualmente no Brasil a voracidade de vender bilhetes aéreos supera o respeito à vida humana. Que a culpa é lançada sobre um número insuficiente de mal remunerados operadores aéreos ou sobre as condições das turbinas dos aviões. Que o Governo é responsável pelo desmonte de uma das mais respeitáveis empresas aéreas do mundo e a mais confiável companhia aérea brasileira, a VARIG. Com isto foi beneficiada a TAM que, desde então passou a ser a maior provedora de bilhetes aéreos pagos pelo Governo. Que a opinião pública é desviada para os supostos erros de bodes expiatórios para que os ambíguos incompetentes que nos governam continuem a agir impunemente. Que nossos aeroportos não têm condições de atender à crescente demanda de vôos mais caro do que em qualquer outro lugar do mundo. Que nenhuma explicação é dada aos usuários. À falta de respeito ao cidadão por parte de nossos governantes se junta o escárnio e a cruel vulgaridade de uma ministra recomendando que os viajantes prejudicados relaxem e gozem, confundindo escabrosos assuntos de alcova com a reta postura exigida na vida pública. Que assessores do presidente deste país substituam a responsabilidade e o compromisso com a segurança de nosso povo por gestos pornográficos, mais apropriados a bordéis do que a gabinetes presidenciais. Que, ao invés de se arrependerem por uma conduta chula, incompatível com a dignidade de um povo doce e gentil como o brasileiro, ainda alardeiam indignação, único sentimento ao alcance dos indignos. Que os que deveriam comandar a responsabilidade pelo tráfego aéreo no Brasil, nada fazem exceto politicagem barata. Aceitam as vantagens de um cargo sem sequer diferenciarem uma caixa preta de sucata. Oneraram e humilharam o país ao levar o material errado a Washington. São essas as autoridade honradas com condecorações conferidas pelo Governo em nome do povo brasileiro, no exato momento do auge de sofrimento de toda uma nação que chora pelos filhos desaparecidos.
Tudo isto eu sabia. A mim, bastava-me minha dor, bastava meu pranto, bastava o sofrimento dos que me amam, dos que amaram meu filho. Nenhum choro ou lamento iria aumentar ou minorar tanta tristeza. Dores iguais ou maiores que a minha, de outras mães, dos pais, filhos e amigos dos mortos necessitam de consolo. A solidariedade e amor ao próximo obrigam-nos a esquecer a própria dor.
Não pensei, contudo, que teria de passar por mais um insulto: ter de ouvir a falsidade de um presidente, sob a forma de ensaiadas e demagógicas palavras de conforto. Um texto certamente encomendado a um hábil redator, dirigidas mais à opinião pública do que a nossos corações, ao nosso luto, às nossas vítimas. Palavras que soaram tão falsas quanto à forçada e patética tentativa de simular uma lágrima. Não, francamente eu não merecia ter de me submeter a mais essa provação nem necessitava presenciar a estúpida cena querendo sofismar sofrimento.
Senhor Presidente, há dias vejo o mundo através de lágrimas amargas mas verdadeiras, confundidas com as lágrimas sinceras e puras de todos os corações amigos. Há dias sei o que é o verdadeiro amor. O amor humano, o Amor Divino. O amor é inefável, o amor é um sentimento despojado de interesse, não recorre a histriônicas atitudes políticas.
Não jorra das bocas, flui do coração !
Adi Maria Vasconcellos Soares
Porto Alegre, 21 de julho de 2007.
Me permito reproduzir aqui a coluna de Juca Kfouri, jornalista o qual admiro muito, publicada ontem na Folha de São Paulo.
Impressiona como o país cada vez mais se acostuma a fingir e a viver, e a morrer, das próprias mentiras
PEGUE-SE QUALQUER exemplo, mas fiquemos com os mais recentes.
No esporte, para começar.
O milésimo de Romário é um bom caso.
O Pan-2007, outro.
Ora, todos sabemos que o Baixinho, fabuloso, maior jogador que uma grande área já viu, criou um objetivo para ele mesmo e todos entraram na festa. Viva!
Mentira inofensiva. Mas mentira. Mentirinha, digamos.
Com o Pan é mais grave, pelo uso do dinheiro público sem a menor cerimônia, um dinheiro que os passageiros que cruzam o país pelos ares agradeceriam se o vissem mais bem gasto.
E aí a falsidade é grave, porque mata.
Em torno do Pan, a omissão é medalha de diamantes.
Thiago Pereira, que é um nadador digno de todo respeito e não tem a menor culpa do que se omite, é tratado como quem superou Mark Spitz.
E, friamente, é verdade.
Mas meia verdade, muitas vezes pior que a mentira pura, por mais difícil de ser desmascarada.
Ora, Spitz, ao ganhar cinco ouros no Pan de Winnipeg, em 1967, simplesmente bateu três recordes mundiais, como bateu outros sete ao ganhar mais sete medalhas de ouro em Munique, nos Jogos Olímpicos de 1972.
Compará-lo a Pereira não honra nenhum dos dois.
Fiquemos por aqui, para falar do que é mais chocante, porque sempre com a cumplicidade da mídia.
A tragédia da TAM, que obscureceu o Pan, é rica em ensinamentos.
Começou não é de hoje, com o escândalo do Sivam, no governo anterior, e continuou impávida e colossal de lá para cá.
Uma frase debochada e ultrajante da ministra do Turismo, um gesto raivoso e moralmente pornográfico do assessor presidencial, um pronunciamento vazio e perplexo do presidente que nunca havia visto uma sucessão de acontecimentos tão caóticos nos aeroportos nacionais e pronto!
Tudo continua como antes, a não ser, é claro, para quem morreu e para quem ficou por aqui, na saudade.
Ora, nem Romário é um artilheiro comparável a Pelé nem Pereira é o novo Spitz nem este governo é mais ou menos culpado que o anterior.
Somos todos responsáveis, ou quase todos, que continuamos a voar como voamos, a votar como votamos, a festejar como festejamos e a reclamar mais dos que são rigorosos do que daqueles que são complacentes.
Dar ao Pan-2007 sua verdadeira dimensão é, para muitos, sintoma ou de bairrismo ou de mau humor.
E a crise aérea vira exploração política.
Mas o que se vê na TV no Pan, e o que se viu e ainda se verá na TV sobre o avião da TAM, é de dar vergonha de como se faz jornalismo/sensacionalismo no Brasil.
O ufanismo sem limites e a demagogia sentimentalóide não nos levarão a lugar algum, a não ser neste em que estamos, do caos, da falta de perspectiva e da acomodação cúmplice e criminosa.
Os resultados superdimensionados do Pan-2007 inevitavelmente se transformarão em frustração quando Pequim chegar, no ano que vem.
Ou alguém acredita mesmo que o Brasil superou o Canadá, que é mais saudável e pratica mais esporte que o país norte-americano?
Brasileiro com muito orgulho?
Quadro de medalhas: 200 mortos.